Retatrutida, orforgliprona, mazdutida, cagrilintida e zenagamtida (amycretina) estão redesenhando o tratamento da obesidade. Quais são os novos medicamentos pa
ra obesidade em desenvolvimento?
Os novos medicamentos para obesidade em desenvolvimento vão muito além da semaglutida e tirzepatida.
Retatrutida combina três alvos hormonais. Mazdutida acrescenta o receptor de glucagon ao GLP-1. Cagrilintida explora a via da amilina. Zenagamtida — anteriormente chamada amycretina — combina GLP-1 e amilina em uma única molécula. E a orforgliprona propõe outra mudança importante: um agonista de GLP-1 oral de pequena molécula.
Algumas dessas terapias ainda são experimentais. Outras já chegaram às primeiras aprovações regulatórias.
Portanto, a pergunta deixou de ser apenas “qual medicamento emagrece mais?”.
A nova geração tenta responder também a outras questões: é possível melhorar a adesão? Explorar mecanismos além do GLP-1? Encontrar diferentes relações entre eficácia e tolerabilidade? E oferecer opções mais individualizadas para o tratamento da obesidade?
O que está mudando nos medicamentos para obesidade?
Os medicamentos atuais já demonstraram que atuar sobre hormônios envolvidos na saciedade, ingestão alimentar e metabolismo pode produzir reduções clinicamente relevantes de peso.
A nova geração amplia essa estratégia.
| Molécula | Principais alvos | Administração em estudo/uso | Situação em agosto de 2026 |
|---|---|---|---|
| Cagrilintida | receptor de amilina | Subcutânea | Fase 3 |
| Mazdutida | GLP-1 + glucagon | Subcutânea | Aprovada na China |
| Orforgliprona | GLP-1 | Oral | Aprovada no Reino Unido |
| Retatrutida | GLP-1 + GIP + glucagon | Subcutânea | Fase 3 concluída em estudos pivotais; ainda investigacional |
| Zenagamtida (amycretina) | GLP-1 + amilina | Oral e subcutânea | Fase 3 |
Essa tabela revela algo importante: o futuro do tratamento da obesidade não é simplesmente “mais GLP-1”.
Há diferentes estratégias sendo testadas para modular ingestão alimentar, saciedade, controle glicêmico e metabolismo energético.
Retatrutida: o que é o agonista triplo?
A retatrutida talvez seja a molécula que mais chama atenção quando o assunto é a próxima geração de medicamentos contra a obesidade.
Ela atua simultaneamente em três receptores:
- GLP-1;
- GIP;
- glucagon.
É por isso que costuma ser chamada de agonista triplo.
A ideia é combinar mecanismos complementares relacionados ao controle da ingestão alimentar e ao metabolismo energético.
Os primeiros resultados já eram expressivos. Em um ensaio clínico de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, a retatrutida produziu reduções substanciais e dose-dependentes de peso em adultos com obesidade. [1]
Desde então, o programa clínico avançou consideravelmente.
Em maio de 2026, a Eli Lilly anunciou resultados do estudo de fase 3 TRIUMPH-1. Na análise apresentada pela companhia, participantes que receberam 12 mg apresentaram redução média de 28,3% do peso corporal em 80 semanas. Entre participantes com IMC inicial igual ou superior a 35 kg/m² acompanhados por 104 semanas, a redução média chegou a 30,3%. [2]
Resultados divulgados posteriormente dos estudos TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3 também mostraram reduções importantes de peso em pessoas com diabetes tipo 2 e em indivíduos com obesidade grave e doença cardiovascular. [3]
É importante fazer uma ressalva: parte desses resultados de fase 3 foi divulgada inicialmente pela fabricante e ainda deve ser analisada integralmente em publicações científicas revisadas por pares.
A retatrutida já foi aprovada?
Não.
Em agosto de 2026, a retatrutida permanece investigacional e não foi aprovada para uso clínico rotineiro por nenhuma agência reguladora.
A própria fabricante alerta que produtos comercializados como “retatrutida” fora de ensaios clínicos autorizados podem ter procedência, composição e concentração desconhecidas. [4]
Portanto, encontrar retatrutida sendo vendida na internet não significa que exista um medicamento aprovado disponível comercialmente.
Orforgliprona: um GLP-1 oral de pequena molécula
A orforgliprona segue um caminho diferente.
Ela também atua sobre o receptor de GLP-1, mas não é um peptídeo como a semaglutida. Trata-se de uma pequena molécula não peptídica administrada por via oral.
Isso tem implicações práticas.
A formulação foi desenvolvida para administração diária sem as mesmas exigências de jejum e restrições de água associadas à formulação oral de semaglutida.
E, em agosto de 2026, ocorreu uma mudança importante em seu status regulatório.
A orforgliprona já foi aprovada?
Sim — no Reino Unido.
Em 10 de agosto de 2026, a Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA) autorizou a orforgliprona, sob o nome comercial Foundayo, para controle de peso e diabetes tipo 2.
O Reino Unido tornou-se o primeiro país europeu a autorizar o medicamento. [5]
Isso não significa que a orforgliprona esteja automaticamente disponível em outros países.
Aprovações regulatórias são nacionais ou regionais e dependem da avaliação de cada agência.
Mas a autorização representa um marco: mostra que um agonista oral de GLP-1 de pequena molécula deixou de ser apenas uma possibilidade experimental.
Mazdutida: GLP-1 encontra o glucagon
A mazdutida acrescenta outro personagem à história: o glucagon.
Ela é um agonista duplo dos receptores de:
- GLP-1;
- glucagon.
A ativação do receptor de GLP-1 está relacionada, entre outros efeitos, à redução da ingestão alimentar e ao controle glicêmico. Já a ativação do receptor de glucagon introduz mecanismos relacionados ao metabolismo e ao gasto energético.
Essa combinação tenta produzir um efeito metabólico mais amplo do que o obtido pelo agonismo isolado do GLP-1.
A mazdutida já foi aprovada?
Sim.
Em junho de 2025, a agência reguladora chinesa NMPA aprovou a mazdutida para controle crônico de peso em adultos chineses com sobrepeso ou obesidade. Ela se tornou o primeiro agonista duplo GLP-1/glucagon aprovado para essa finalidade. [6]
A evidência continuou avançando depois da aprovação.
Em 2026, o ensaio clínico randomizado de fase 3 GLORY-2 foi publicado no JAMA. O estudo avaliou mazdutida 9 mg em adultos chineses com obesidade.
Após 60 semanas, a redução média de peso observada foi de 16,65% com mazdutida versus 1,50% com placebo. Eventos adversos gastrointestinais, especialmente vômitos, náuseas e diarreia, foram frequentes. [7]
Isso também mostra por que comparar medicamentos apenas pelo percentual de perda de peso pode ser enganoso.
Populações, doses, duração dos estudos, critérios de inclusão e métodos estatísticos são diferentes. Comparações confiáveis entre medicamentos dependem idealmente de ensaios clínicos head-to-head.
Cagrilintida: por que a amilina entrou nessa corrida?
Nem toda inovação no tratamento da obesidade passa por adicionar outro receptor incretínico.
A cagrilintida é um análogo de longa ação da amilina.
A amilina é um hormônio produzido pelas células beta pancreáticas e liberado junto com a insulina após a alimentação. Entre suas ações fisiológicas estão efeitos relacionados à saciedade e ao controle da ingestão alimentar.
A cagrilintida vem sendo estudada isoladamente e, principalmente, em combinação com semaglutida.
Essa combinação recebeu o nome de CagriSema.
No estudo de fase 3 REDEFINE 1, publicado no New England Journal of Medicine, a combinação produziu redução média estimada de 20,4% do peso corporal em 68 semanas, considerando a estratégia estatística que incluiu todos os participantes independentemente da adesão ao tratamento. [8]
A cagrilintida isoladamente também está avançando. Dados do programa clínico levaram ao desenvolvimento de um programa de fase 3 específico para a molécula. [9]
Há, porém, uma boa demonstração de por que resultados precisam ser interpretados sem torcida organizada.
No estudo REDEFINE 4, divulgado em fevereiro de 2026, CagriSema produziu perda de peso importante, mas não atingiu o objetivo primário de demonstrar não inferioridade à tirzepatida. [10]
Ou seja: resultado clinicamente relevante não significa automaticamente superioridade ao tratamento já disponível.
Amycretina agora é zenagamtida
Quem acompanha esse pipeline há algum tempo provavelmente conhece o nome amycretina (amycretin).
Vale atualizar o vocabulário: a molécula passou a ser chamada zenagamtida (zenagamtide).
Ela é particularmente interessante porque reúne em uma única molécula agonismo dos receptores de:
- GLP-1;
- amilina.
Além disso, versões subcutânea e oral estão em desenvolvimento.
Em estudos iniciais em pessoas com sobrepeso ou obesidade, a formulação subcutânea apresentou reduções de peso que chegaram a aproximadamente 22% em 36 semanas na maior dose estudada, embora esses resultados tenham vindo de fases clínicas iniciais e não devam ser comparados diretamente com ensaios de outros medicamentos. [11]
Em junho de 2026, novos resultados de fase 2 em pessoas com diabetes tipo 2 foram apresentados, e a Novo Nordisk informou avanço da zenagamtida para desenvolvimento de fase 3. [12]
A molécula, portanto, passou de uma candidata experimental bastante precoce para um programa clínico avançado em relativamente pouco tempo.
Esses novos medicamentos estão disponíveis no Brasil?
Aqui é fundamental separar três conceitos:
estar em estudo clínico não é o mesmo que estar aprovado; estar aprovado em outro país não significa estar aprovado no Brasil; e possuir uma Denominação Comum Brasileira não significa possuir registro sanitário para comercialização.
Em agosto de 2026, não se deve presumir que retatrutida, orforgliprona, mazdutida, cagrilintida ou zenagamtida estejam aprovadas pela Anvisa simplesmente porque aparecem em pesquisas, notícias ou ofertas na internet.
Há, inclusive, protocolos de pesquisa clínica envolvendo moléculas desse pipeline autorizados no Brasil. A Anvisa registrou, por exemplo, protocolos envolvendo orforgliprona e retatrutida em seu boletim de pesquisa clínica de março de 2026. [13]
Isso demonstra atividade de pesquisa — não autorização para venda do medicamento.
Esse detalhe tende a se tornar cada vez mais importante à medida que nomes como retatrutida ganham popularidade nas redes sociais.
Qual deles será o sucessor do Mounjaro e do Wegovy?
Talvez essa seja a pergunta errada.
O pipeline atual sugere que provavelmente não haverá simplesmente um único medicamento que “substitua” semaglutida ou tirzepatida.
Podemos estar caminhando para um cenário com diferentes estratégias:
- agonistas orais de pequenas moléculas;
- combinações envolvendo GLP-1 e amilina;
- agonistas de GLP-1 e glucagon;
- agonistas triplos;
- medicamentos com diferentes vias de administração;
- terapias selecionadas conforme características metabólicas e clínicas do paciente.
E eficácia não é o único critério.
Segurança em longo prazo, tolerabilidade, preservação da massa magra, adesão, comorbidades, custo, acesso e desfechos cardiovasculares também ajudarão a determinar o papel real de cada medicamento.
O que ainda precisamos descobrir?
Os números de perda de peso naturalmente chamam atenção.
Mas um percentual impressionante em um comunicado de imprensa não encerra a discussão científica.
Para algumas dessas moléculas ainda precisamos de publicações completas de estudos de fase 3, avaliação regulatória, acompanhamento de segurança em populações maiores e mais diversas e, principalmente, dados que mostrem como elas se comportam fora das condições controladas dos ensaios clínicos.
Também precisamos de mais comparações diretas.
Dois medicamentos produzirem perdas médias de peso semelhantes em estudos diferentes não significa que tenham eficácia equivalente.
Esse tipo de conclusão exige desenho experimental adequado.
A próxima geração dos medicamentos para obesidade já começou
Semaglutida e tirzepatida não parecem ser o ponto final da transformação farmacológica do tratamento da obesidade.
Retatrutida está levando o conceito de agonismo múltiplo aos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. Mazdutida já levou a combinação GLP-1/glucagon ao mercado chinês. Orforgliprona mostrou que pequenas moléculas orais podem ocupar espaço nesse cenário. Cagrilintida trouxe a amilina para o centro da discussão. E zenagamtida tenta integrar GLP-1 e amilina em uma única molécula disponível potencialmente por diferentes vias de administração.
A pergunta para os próximos anos provavelmente deixará de ser apenas “quanto peso esse medicamento consegue reduzir?”
Será preciso perguntar também: para quem, com qual segurança, por quanto tempo, com quais benefícios metabólicos e a que custo?
É essa resposta — e não a corrida pelo maior percentual — que determinará quais dessas moléculas realmente mudarão a prática clínica.
Referências
- Jastreboff AM, Kaplan LM, Frías JP, et al. Triple–Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. N Engl J Med. 2023;389:514-526. doi:10.1056/NEJMoa2301972.
- Eli Lilly and Company. TRIUMPH-1 Phase 3 results. 21 maio 2026.
- Eli Lilly and Company. TRIUMPH-2 and TRIUMPH-3 Phase 3 results. 23 julho 2026.
- Eli Lilly and Company. What to know about retatrutide. Atualizado em 2026.
- Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. UK first in Europe to authorise orforglipron for weight management and type 2 diabetes. 10 agosto 2026.
- Innovent Biologics. NMPA approval of mazdutide for chronic weight management. 27 junho 2025.
- Gao L, Jiang H, Cai H, et al. Treatment With 9-mg Mazdutide for Weight Reduction in Chinese Adults With Obesity: The GLORY-2 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2026;336(5):377-388. doi:10.1001/jama.2026.8142.
- Garvey WT, Blüher M, Osorto Contreras CK, et al. Coadministered Cagrilintide and Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2025;393:635-647. doi:10.1056/NEJMoa2502081.
- Novo Nordisk. Annual Report 2025. Development programme for cagrilintide.
- Novo Nordisk. REDEFINE 4 headline results. 23 fevereiro 2026.
- Novo Nordisk. Subcutaneous amycretin phase 1b/2a results.
- Novo Nordisk. Investigational zenagamtide phase 2 results presented at ADA 2026. 6 junho 2026.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boletim de Pesquisa Clínica, edição 66, março de 2026.