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Ashwagandha: Efeitos Colaterais, Contraindicações e Interações

Ashwagandha pode causar efeitos colaterais? Conheça os riscos para fígado e tireoide, contraindicações e possíveis interações com medicamentos.

A ashwagandha (Withania somnifera) ganhou espaço em suplementos vendidos para estresse, ansiedade e sono. Mas a popularidade trouxe também uma pergunta importante: quais são os efeitos colaterais da ashwagandha?

Nos estudos clínicos, extratos padronizados utilizados por períodos relativamente curtos foram, em geral, bem tolerados. Os efeitos adversos relatados costumam ser leves e incluem principalmente desconforto gastrointestinal e sonolência.

Isso, porém, não significa ausência de risco.

Há relatos bem documentados de lesão hepática associada ao uso de ashwagandha, evidências de que a planta pode interferir na função tireoidiana e dúvidas ainda não totalmente respondidas sobre interações com alguns medicamentos.

A diferença está nos detalhes — e principalmente na qualidade da evidência disponível para cada risco.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns da ashwagandha?

Em estudos clínicos, os efeitos adversos associados ao uso de ashwagandha geralmente foram leves e transitórios.

Entre os relatados estão:

  • desconforto ou dor gastrointestinal;
  • diarreia ou fezes amolecidas;
  • náusea;
  • cefaleia;
  • sonolência ou sensação de sedação.

Uma revisão sistemática recente que avaliou extratos padronizados da raiz encontrou boa tolerabilidade geral nos estudos analisados, sem eventos adversos graves atribuídos aos extratos. Entretanto, os próprios autores destacaram uma limitação importante: ainda existem poucos dados de segurança para uso superior a aproximadamente seis meses.

Portanto, afirmar que um suplemento foi bem tolerado durante algumas semanas ou meses não permite concluir automaticamente que seu uso contínuo por anos tenha o mesmo perfil de segurança.

Ashwagandha pode fazer mal ao fígado?

Sim. Existem casos documentados de lesão hepática associada à ashwagandha.

Isso não significa que hepatotoxicidade seja um evento frequente. Significa que o risco não pode mais ser considerado apenas hipotético.

Uma série publicada no Liver International descreveu cinco pacientes com lesão hepática atribuída a suplementos contendo ashwagandha.

Os sintomas surgiram aproximadamente entre duas e doze semanas após o início do uso. O padrão predominante foi de lesão colestática ou mista, com manifestações como:

  • icterícia;
  • prurido;
  • náusea;
  • desconforto abdominal;
  • fadiga.

Na maioria dos pacientes acompanhados, os exames hepáticos normalizaram após a suspensão, embora a recuperação pudesse levar meses.

Posteriormente, uma série multicêntrica da Índia analisou oito casos associados a preparações contendo apenas ashwagandha. A hepatite colestática voltou a aparecer como apresentação frequente.

Um detalhe merece atenção: pacientes que já apresentavam doença hepática crônica tiveram evolução mais grave nessa série.

Quais sintomas merecem atenção?

Durante o uso de ashwagandha, sintomas como pele ou olhos amarelados, urina escura, coceira intensa, náuseas persistentes, perda importante de apetite ou dor abdominal justificam suspensão do produto e avaliação profissional.

Também é importante informar ao profissional de saúde todos os suplementos utilizados.

“Natural” não é uma informação suficiente para excluir uma substância da investigação de uma possível lesão hepática.

Ashwagandha interfere na tireoide?

Aqui encontramos uma questão particularmente interessante.

Há evidências de que a ashwagandha pode modificar parâmetros relacionados à função tireoidiana.

Em um pequeno ensaio randomizado com 50 pessoas com hipotireoidismo subclínico, 600 mg/dia de extrato de raiz durante oito semanas produziram alterações significativas em TSH, T3 e T4 quando comparados ao placebo.

Esse resultado foi estudado como possível efeito terapêutico, mas também demonstra algo importante do ponto de vista de segurança:

a ashwagandha não é necessariamente neutra sobre a função tireoidiana.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026, envolvendo 23 ensaios randomizados e 1.706 participantes para diferentes desfechos hormonais, não encontrou efeito significativo sobre TSH ou T3 no conjunto dos estudos, mas identificou aumento modesto de T4.

Também existem relatos de casos de tireotoxicose temporalmente associados ao uso da planta, com melhora após a suspensão.

Esses dados não permitem afirmar que a ashwagandha provoque hipertireoidismo na maioria das pessoas.

Permitem, entretanto, questionar a ideia de que qualquer pessoa com doença tireoidiana possa utilizá-la sem considerar seu tratamento e seus exames.

Quem tem problema de tireoide pode tomar ashwagandha?

Não existe uma resposta universal.

Uma pessoa com hipotireoidismo controlado usando levotiroxina, uma pessoa com hipertireoidismo e outra com alterações subclínicas apresentam situações completamente diferentes.

Como existem evidências de modulação dos hormônios tireoidianos, pacientes com doença da tireoide — principalmente aqueles em tratamento farmacológico — devem discutir o uso com o profissional que acompanha sua condição.

O cuidado é particularmente relevante porque uma alteração laboratorial poderia ser interpretada como necessidade de modificar a dose do medicamento quando outro fator, como a introdução de um suplemento, também mudou recentemente.

Ashwagandha tem interação com medicamentos?

Essa pergunta exige mais cuidado do que muitas listas encontradas na internet sugerem.

Para algumas combinações existem relatos clínicos. Para outras, a preocupação deriva principalmente de mecanismos farmacológicos ou estudos pré-clínicos.

Essas duas situações não possuem o mesmo peso de evidência.

Por isso, uma lista extensa dizendo simplesmente “ashwagandha interage com X, Y e Z” pode transmitir uma certeza que a literatura ainda não oferece.

Entre os grupos que merecem avaliação estão medicamentos que atuam no sistema nervoso central, medicamentos para tireoide, imunomoduladores e fármacos com potencial de interação farmacocinética.

Ashwagandha pode interagir com antidepressivos?

Existem sinais que justificam atenção, mas a evidência clínica ainda é limitada.

Uma análise retrospectiva de eventos adversos envolvendo adaptógenos e antidepressivos encontrou relatos envolvendo Withania somnifera utilizada concomitantemente com reboxetina, sertralina, escitalopram e paroxetina.

Os eventos relatados foram variados, incluindo sintomas gastrointestinais, musculares e outros efeitos.

Esse tipo de estudo é útil para gerar sinais de farmacovigilância, mas não demonstra sozinho que a combinação tenha causado cada evento observado, nem permite estimar com precisão a frequência do risco.

Além disso, estudos experimentais sugerem possíveis efeitos da ashwagandha sobre vias GABAérgicas e serotoninérgicas.

Portanto, o mais correto não é afirmar que “ashwagandha não pode ser usada com antidepressivos”, mas reconhecer que a associação merece avaliação individual, especialmente quando surgem novos sintomas após a introdução do suplemento.

E as interações pelo citocromo P450?

Aqui existe outra armadilha comum.

Resultados obtidos em laboratório demonstrando inibição ou indução de determinada enzima não significam automaticamente uma interação clinicamente relevante em humanos.

Uma revisão da literatura sobre segurança da raiz de Withania somnifera não encontrou evidências consistentes de inibição de CYP3A4 e CYP2D6 em estudos avaliados.

Por outro lado, pesquisas mais recentes continuam investigando possíveis efeitos sobre enzimas CYP e transportadores como a P-glicoproteína.

A conclusão responsável, portanto, continua sendo:

o potencial farmacocinético merece investigação, mas não devemos transformar evidência in vitro em interação clínica comprovada.

Esse princípio vale para ashwagandha e para praticamente qualquer fitoterápico.

Ashwagandha causa sono?

Pode ocorrer sonolência.

Esse efeito aparece entre os eventos adversos descritos em estudos e faz sentido diante dos efeitos da planta investigados justamente sobre estresse e sono.

Por isso, associações com medicamentos ou outras substâncias sedativas merecem cautela, principalmente no início do uso.

A intensidade do efeito pode variar conforme preparação, concentração, dose e indivíduo.

Todas as ashwagandhas são iguais?

Não.

E essa talvez seja uma das maiores dificuldades para interpretar a literatura sobre plantas medicinais.

Os estudos utilizam:

  • partes diferentes da planta;
  • extratos com diferentes métodos de obtenção;
  • concentrações distintas de withanolides;
  • doses diferentes;
  • produtos com diferentes graus de padronização.

Portanto, um resultado obtido com determinado extrato padronizado não pode ser automaticamente transferido para qualquer cápsula de ashwagandha encontrada no mercado.

Essa diferença também dificulta comparar estudos de eficácia e segurança.

Ashwagandha é segura?

Para adultos saudáveis utilizando determinados extratos padronizados nas doses e pelos períodos avaliados em ensaios clínicos, a tolerabilidade observada foi geralmente boa.

Mas essa frase contém quatro condições importantes:

adultos saudáveis, determinados extratos, determinadas doses e períodos estudados.

Ela não significa que qualquer produto seja seguro para qualquer pessoa por tempo indeterminado.

Casos de lesão hepática foram documentados. Existem sinais de efeitos sobre a função tireoidiana. Interações medicamentosas continuam sendo investigadas. E dados de segurança de longo prazo ainda são insuficientes.

A conclusão mais útil, portanto, não é classificar a ashwagandha como “segura” ou “perigosa”.

É reconhecer que fitoterápicos possuem atividade farmacológica — e atividade farmacológica pode produzir tanto efeitos desejados quanto efeitos adversos e interações.


Referências

BJÖRNSSON, H. K. et al. Liver Injury due to Ashwagandha. A Case Series from Iceland and the U.S. Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International, v. 40, n. 4, p. 825–829, 2020. doi:10.1111/liv.14393.

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Back to the Roots: Safety and Tolerability of Standardised Ashwagandha (Withania somnifera) Root Extract in Healthy Adults — A Systematic Review of Biomarkers and Adverse Events. 2026. PMID: 42198398.

DASGUPTA, A. et al. Safety and clinical effectiveness of Withania somnifera (Linn.) Dunal root in human ailments. Journal of Ethnopharmacology, 2020. doi:10.1016/j.jep.2020.112768.